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PULANDO DE CIMA DO MURO - Quebrei o pé, a perna e o braço. Meus irmãos falam toda hora que passam pela mesa onde eu durmo debaixo dela e me vêm lá: E ai, vai tentar voar de novo?

19º CAPÍTULO - PULANDO DE CIMA DO MURO Meu pai está arrumando o muro do terreiro aqui de casa. O caminhão da empresa onde ele trabalha trouxe areia para ele e despejou ao lado do portão de nossa casa. Ficou um monte alto de areia, quase da altura do muro. Meu pai foi levando a areia a medida que ia precisando. Eu estava debaixo da mesa junto com meu irmão, fazendo meu dever. Assim que terminamos meu irmão já saiu correndo para ir na rua. Fiquei guardando meu material em minha mochila que já esta um pouco rasgada no fundo por eu arrastá-la ao carregá-la para a escola. Depois que guardei meu material fui lá para fora também. Vi aquela areia, que só tinha um pequeno monte, pois meu pai já tinha levado a maior parte pra dentro de casa. Fiquei andando em cima de areia e achei legal o pé da gente afundar nela. Então achei que seria legal se eu pulasse de cima do muro no monte de areia. Meu pai estava dentro de casa arrumando o muro. Minha mãe também estava dentro de casa. A...

O FOGÃO A LENHA E A SERRAGEM - Assim, vou arrastando o saco de serragem pela rua muito vagarosamente. Algumas vezes acontece dele furar e fica uma trilha de serragem na rua

20º CAPÍTULO - O FOGÃO A LENHA E A SERRAGEM O fogão a lenha de nossa casa não usa lenha. Isso mesmo, não usa lenha. Para ele funcionar a gente usa serragem. Serragem eh um pó que sai da madeira quando ela eh serrada. Na empresa onde meu pai trabalha tem a marcenaria que faz móvel. Eles trabalham o dia inteiro serrando madeira. Então acumula muita serragem. Na maioria das casas do nosso bairro, os moradores usam lenha no fogão a lenha. Poucos usam serragem como a gente. Essa serragem a gente tem que buscar nesta marcenaria, mas só podemos pegar serragem na sexta feira e depois que eles param de trabalhar. E só temos meia hora pra fazer isso. Na sexta feira na hora do almoço meu pai já avisa para mim e mais dois irmãos meu que temos que buscar serragem. Não podemos esquecer de jeito nenhum, porque se não tiver serragem não tem como acender o fogão e a gente apanha muito do meu pai. Assim, quando a empresa onde meu pai trabalha apita avisando que faltam cinco minutos para ...

EU E OS PASSARINHOS DO MEU PAI - Pensei que os passarinhos queriam sair da gaiola para dar uma volta. Então, abri a porta de todas as gaiolas e pedi que eles voltassem antes que meu pai chegue para o almoço

21º CAPÍTULO - EU E OS PASSARINHOS DO MEU PAI Meu pai cria passarinhos. Ele tem várias gaiolas com vários passarinhos diferentes. Acho que ele vende passarinhos. Quem limpa as gaiolas e coloca comida para os passarinhos são meus irmãos. Eles sempre reclamam, pois ficam mais de uma hora para limpar todas as gaiolas. Meu pai disse que não posso limpar as gaiolas sozinho, mas tenho que ajudar meus irmãos. Essas gaiolas ficam debaixo de uma coberta que tem no fundo do terreiro. Essas gaiolas são limpas sempre de manhã. Hoje, depois que terminamos de limpar as gaiolas, meus irmãos foram para dentro de casa e eu fiquei ali debaixo da coberta sentado no chão e olhando os passarinhos. Fiquei pesando que os passarinhos quisessem dar uma volta voando no nosso bairro. Então, fiquei de pé em frente às gaiolas e disse para os passarinhos que eu ia deixar eles voarem pelo nosso bairro, mas eles tinham que voltar antes que meu pai chegue para almoçar, as onze horas. Fui de gaiola em ...

ASSISTINDO TV NA CASA DA MINHA TIA E FUGINDO DOS FANTASMAS - Não tinha ninguém na rua e eu tinha medo de fantasma. Então, fechava os olhos e saia correndo o máximo que podia. Abria e fechava os olhos rapidamente até chegar em casa

22º CAPÍTULO - ASSISTINDO TELEVISÃO NA CASA DA MINHA TIA E FUGINDO DOS FANTASMAS  Não temos televisão em nossa casa, mas na casa da minha tia que mora na mesma rua que a gente, mas depois da terceira travessa, tem. Ela liga a televisão somente depois que o marido dela chega do serviço a tarde. O marido dela trabalha na mesma empresa onde meu pai trabalha. Ela tem oito filhos. Tem um tio nosso que mora com essa nossa tia. Ele eh irmão dela e nunca se casou. Eu e meus irmãos chamamos esse nosso tio de Tio Nono. Ele eh entrevado. Tem muitas dificuldades de mexer com os braços e as pernas. Por isso, passa muito tempo na cama. Quase todos os dias depois que o dia escurece, eu e meus irmãos vamos até a casa desta nossa tia ver televisão. Nossa tia não deixa a gente entrar na casa dela para assistir a televisão, nós só podemos ver da janela da sala onde esta a televisão. Debaixo desta janela tem um beiral, que eh do alicerce da casa. A gente sobe neste beiral e fica de...

ENCHENDO O FOGÃO A LENHA DE SERRAGEM - Socar o fogão nada mais eh que colocar serragem dentro do local onde deveria ir lenha e socar até ela ficar bem prensada

23º CAPÍTULO - ENCHENDO O FOGÃO A LENHA DE SERRAGEM Buscar serragem para nosso fogão a lenha na empresa onde meu pai trabalha a gente ia toda sexta feira. Mas tinha uma tarefa que nenhum dos meus irmãos e nem eu, queríamos fazer. Era Socar o Fogão. Socar o Fogão eh colocar a serragem dentro do local onde deveria ir a lenha e amassá-la até ficar bem prensada e firme. Tem três canos que a gente coloca antes. Um destes canos era comprido e fica em baixo onde geralmente coloca a lenha. Os outros três menores ficam em cima deste cano comprido na direção das bocas da tampa de cima do fogão. Depois que posiciono os canos eh que coloco a serragem. Encho de serragem até em cima e depois vou prensando a serragem com um socador feito para isso. Quando faço isso a serragem baixa até o meio mais o menos. Ai tenho que colocar mais serragem e socar novamente. Faço isso até que a fique bem firme e cheio até a borda. E isso tem que ser feito todos os dias. Depois que termino eu vou tir...

A PONTINHA E O JOGO DE MALHA - Eh muito arriscado passar por essa pontinha, ela não tem proteção dos lados e nem onde se segurar. As tábuas ficam se mexendo quando pisamos nelas.

24º CAPÍTULO - A PONTINHA E O JOGO DE MALLHA Meu pai gosta de jogar um jogo que se chama "Jogo de Malha". Eh um jogo parecido com boliche, onde a gente joga um contra outro, mas só tem um pino no centro de um círculo de cada lado. E o que eles jogam para derrubar este pino eh um disco redondo feito de ferro. Este disco que eles chamam de "malha". Quase todos os domingos meu pai vai até um bairro vizinho onde as pessoas que moram lá fizeram um campo para jogar malha. Para sair do nosso bairro e ir para este bairro vizinho a gente tem que ir na cidade ou passar por uma pontinha, que eles chamam de pontilhão. Essa pontinha esta em construção e são os moradores do nosso bairro que estão construindo com a ajuda da empresa onde meu pai trabalha. Ainda não colocaram o concreto para fazer a pontinha, nem tem a proteção dos lados, mas colocaram tábua para que as pessoas já pudessem atravessar. Eh muito arriscado passar ali, porque não tem onde segurar. Essa pont...

PESCARIA COM LIMÕES - Chegamos por volta das dez da noite. O lugar eh muito escuro. Meu pai acende uma lamparina que tem um mini botijão em baixo que eles chamam de Liquinho.

25º CAPÍTULO - PESCARIA COM LIMÕES Meu pai gosta muito de pescar. Ele pesca em muitos lugares perto de casa e um pouco mais longe aonde sempre vai a pé ou de bicicleta. Alguns lugares ele vai de trem até a estação e depois continua o restante do caminho até o rio a pé mesmo. Algumas pescarias do meu pai ele vai com os amigos e tios nosso. Geralmente essas ele fica mais tempo. Nas pescarias que ele vai a pé ou de bicicleta ele leva minha mãe, alguns dos meus irmãos e eu. Eu não gosto de pescar, mas tenho que ir assim mesmo. Alguns dos meus irmãos quando nasceram meu pai nem estava aqui, ele estava pescando e não deu para chegar a tempo de ver o nascimento. Um amigo de meu pai tem um rancho na beira de um grande lago formado por uma represa. Meu pai vai neste rancho pescar com este amigo dele, que eh o dono do rancho, geralmente na sexta e volta domingo. Eles vão no carro deste dono do rancho. Sempre meu pai leva um ou dois filhos. Pela primeira vez meu pai disse que eu vou ...

AS GALINHAS DE DOMINGO - Todos os domingos minha mãe faz galinha para o almoço. Meu pai corta a galinha em vinte pedaços, um para cada filho. Eu sempre fico com o pé da galinha

26º CAPÍTULO - AS GALINHAS DE DOMINGO Todos os domingos minha mãe faz galinha para o almoço. Temos aqui em casa um galinheiro onde meu pai cria galinhas. Elas são para nosso almoço de domingo. Meu pai eh quem pega a galinha, mata, depena e depois pica em pedaços. Ele sempre divide a galinha em vinte pedaços, porque tem que ser um pedaço para cada um de nós. O peito ele divide em dois pedaços e um pedaço eh dele e o outro da minha mãe. Tira também a parte com o ossinho de aposta. Assim ele vai picando a galinha. Tira a coxa e sobrecoxa, a asinha e a coxinha da asa. A costela ele divide em duas e o sobre também eh dividido em dois. Tem o pescoço, a moela, o fígado e o coração e claro, os pés. Os melhores pedaços vão sendo para os irmãos mais velhos. Assim meus pais ficam com o peito, o pedaço com as coxas e sobrecoxas ficam com meus quatro irmãos mais velhos. O próximo fica com o pedaço com o ossinho de aposta. Asas e coxinhas das asas com os quatro irmãos seguintes, o so...

BRINCANDO COM O ARROZ, O AÇÚCAR E O FEIJÃO - Misturei o arroz com o açúcar e o feijão e quando minha mãe viu começou a chorar.

27º CAPÍTULO - BRINCANDO COM O ARROZ, AÇÚCAR E O FEIJÃO Naquele balcão onde minha mãe guarda os sessenta quilos de arroz, os sessenta quilos de açúcar e os trinta quilos de feijão fica na copa, onde tem a mesa onde eu durmo em baixo. Muitas vezes meus irmãos e eu também, abrimos a tampa deste balcão, que eh uma tampa só para os três compartimentos, para pegar açúcar para comer. Claro, sem que minha mãe veja, pois ela não gosta que a gente mecha lá. Mas sempre que queremos comer alguma coisa doce, nós comemos açúcar. Quando o pé de tomate que tem plantado na horta aqui de casa tem tomates maduros, a gente apanha o tomate, parte ele no meio, come as sementes e depois enchemos de açúcar as duas bandas do tomate que partimos e comemos. Eh muito gostoso e fazemos isso sempre que tem tomates maduro nos pés daqui de casa. Eh melhor que doce. Estava deitado em minha cama debaixo da mesa e sem nada para fazer, olhando aquele balcão, quando resolvi ir comer açúcar. Abri a tampa do b...

AS GOIABEIRAS DA CASA DO MEU TIO - Eu não posso subir no pé de goiaba, porque estou sempre caindo de árvore, mas desta vez eu fui com cuidado para pegar uma goiaba grande, mas desequilibrei e caí

28º CAPÍTULO - AS GOIABEIRAS DA CASA DO MEU TIO Meu pai tem um irmão que mora em outro bairro não muito longe do nosso. Na casa deste nosso tio tem um terreiro muito grande. Neste terreiro da casa dele tem três pés de goiaba. Estes pés já são bem velhos e são muito altos. Sempre quando eh época de goiaba, meu pai deixa a gente ir nesta casa do meu tio pedir para apanhar goiabas. Nem sempre ele deixa. As vezes quando chegamos na casa dele, geralmente eu e mais uns quatro ou cinco irmãos meu e pedimos para apanhar goiaba, ele diz não. Sempre vamos lá pedir para apanhar goiabas no domingo. Quando ele deixa a gente apanhar goiabas e nós entramos para o terreiro dele, vemos os pés de goiabas carregados de goiabas maduras. O chão sempre cheio de goiabas que caíram. Eh muita goiaba mesmo nos três pés. Meus irmãos sobem com as sacolas para colocar goiabas para levar para nossos pais e meus outros irmãos que não vieram. Mas meus irmãos vão enchendo as sacolas e comendo goiaba ao me...

AS MATINÊS DE DOMINGO A TARDE - Tem um dia do ano que meus pais obrigam todos nós ir assistir um filme na matinê de domingo no Cine Arte. O filme eh o mesmo todos os anos

29º CAPÍTULO - AS MATINÊS DE DOMINGO A TARDE Aqui no nosso bairro não tem cinema, mas na cidade tem três cinemas. Tem o Cine Popular, que minha mãe diz que criança não pode ir porque só passa filme indecente. Tem o Cine Divinópolis, que também não podemos ir porque eh para pessoas ricas. E tem o cine Arte Ideal, este, segundo minha mãe, eh para o povão. O Cine Arte eh muito legal, tem lugar para mais de duzentas pessoas e tem nos fundos dele e no segundo andar, um "Poleiro". Este Poleiro eh na verdade um camarote, mas que eh conhecido por todos aqui como Poleiro mesmo. Qualquer pessoa pode ver o filme dali. Este poleiro tem lugar para umas cinquenta pessoas. Se a gente quiser ficar no poleiro a gente tem que ir bem cedo para o cinema, porque lá eh o primeiro lugar que fica cheio de gente Minha mãe não gosta que a gente fique no poleiro, por isso eu sempre fico na parte de baixo, mas alguns dos meus irmãos vão para este poleiro. Eu não posso ir ao cinema a ...

ENGRAXANDO SAPATOS - Eu ia para a cidade e ficava no cruzamento das duas principais ruas, porque ali passava a maioria das pessoas a pé. Muitos que queriam engraxar os sapatos não acreditavam que eu seria capaz de engraxar os sapatos deles direito

30º CAPÍTULO - ENGRAXANDO SAPATOS Meu pai procura sempre arrumar um emprego para meus irmãos assim que ele entende que já podem trabalhar. Mas nem sempre ele consegue, outras vezes ficam no trabalho por pouco tempo, talvez porque são novos ainda. Eu comecei a engraxar sapatos quando era bem novo ainda. A caixa de engraxar sapatos era do meu irmão mais velho, foi feita na empresa onde meu pai trabalha. Quando meu irmão arrumou outro serviço, passou a caixa para o irmão mais novo. E foi assim passando de irmão em irmão. Agora foi passada para mim. Todos meus irmãos já foram engraxates antes de arrumar o primeiro emprego e agora chegou minha vez. Eu ia para a cidade e ficava no cruzamento das duas principais ruas, porque ali passava a maioria das pessoas a pé. Muitos que queriam engraxar os sapatos não acreditavam que eu seria capaz de engraxar os sapatos deles direito. Achavam que eu era muito novo. Alguns perguntavam pelo meu irmão que engraxava antes de mim, porque ele não...

VENDEDOR DE PICOLÉS - Peguei o carrinho com cinquenta picolés e fui para nosso bairro tentar vender lá. Parei em frente a nossa casa. Meus irmãos ficaram perguntando o que eu fazia ali. Eu dizia que estava vendendo picolé e se algum deles quisesse teria que pagar

31º CAPÍTULO - VENDEDOR DE PICOLÉS Engraxar sapatos não estava dando muito certo, pois na maioria dos dias eu não consegui engraxar nenhum sapato. Então, meu pai que era amigo do dono de uma sorveteria que tinha na cidade, na verdade a única que tem na cidade, e foi conversar com ele para eu vender picolé no carrinho pela cidade. Este amigo do meu pai faz picolés e muitos meninos saem com carrinho vendendo picolés para ele. Meu pai combinou tudo com ele e eu teria que somente pegar o carrinho com picolés e sair pelas ruas da cidade vendendo. Fiz conforme meu pai mandou, peguei o carrinho com cinquenta picolés e fui para nosso bairro tentar vender lá. Parei em frente a nossa casa. Meus irmãos ficaram perguntando o que eu fazia ali. Eu dizia que estava vendendo picolé e se algum deles quisesse teria que pagar. Eles riam muito de mim, me chamavam de maluco e diziam que eu tinha que ir na cidade, ali no bairro ninguém ia comprar. Então, com medo de meu pai chegar e me ver ali ...